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Com a redução gradativa do emprego formal e o consequente aumento empreendedores e profissionais liberais na área de serviços, é importante considerar um bom planejamento de marketing como uma estratégia vital para visibilidade, crescimento e manutenção do negócio. Mas só isso basta? Não está faltando alguma coisa importante? Em uma bela praia do litoral de Pernambuco, o “seu” Nestor dá a resposta.

 

Moreno alto, bonito e sensual, talvez eu seja a solução do seu problema…

Carinhoso, bom nível social, inteligente e a disposição para um relacionamento íntimo e discreto. Realize seu sonho sexual!

Para qualquer tipo de transação, sem compromisso emocional, só financeiro.

O endereço para comunicação: caixa postal do amante profissional.

Se analisada com uma visão empreendedora, é possível perceber claros elementos de marketing bem estruturado para venda de um serviço e, porque não, de um produto, na letra da canção Amante Profissional, lançada com muito sucesso nos anos 80, pela banda Herva Doce (erva com H mesmo).

Mas, o que seria exatamente um marketing bem estruturado? Bom, colocando de um modo bem simples, trata-se do conjunto de informações que desperta atenção ou interesse de um possível cliente.

No caso da letra, escrita pelo saudoso vocalista Renato Ladeira, estão claros os pontos básicos:

  • Serviço oferecido: amante profissional.
  • Possibilidade de solucionar uma necessidade específica:  talvez eu seja a solução do seu problema para realização do seu sonho sexual.
  • Descrição do produto: moreno, alto, bonito, sensual, carinhoso, bom nível social e inteligente.
  • Condições e esclarecimentos para contratação:  disponibilidade para um relacionamento íntimo, discreto e sem compromisso emocional, apenas financeiro.

De posse desta riqueza de detalhes, é possível que o tal amante profissional tenha adquirido mais algumas caixas postais, na agência dos Correios do seu bairro (lembrando que na época do lançamento da canção, utilizava-se um meio primitivo de comunicação, chamado carta).

Com a redução gradativa do emprego formal e o consequente aumento empreendedores e profissionais liberais na área de serviços, é importante considerar um bom planejamento de marketing como uma estratégia vital para visibilidade, crescimento e manutenção do negócio.

Mas só isso basta? Não está faltando alguma coisa importante? Pode apostar que sim.

Certa vez, em uma linda praia do litoral pernambucano, recebi uma lição inesquecível e inestimável. Enquanto contemplava o mar e pensava como seria maravilhoso morar naquela região tranquila e pacata, notei uma aglomeração de pessoas ao redor de um vendedor de cerveja, que estava nas imediações, abrindo e fechando frenética e continuamente sua caixa de isopor, para atender a demanda dos sedentos por uma “loira gelada”.

Há poucos metros dali, havia outro vendedor, aparentemente oferecendo o mesmo produto, mas amargando a falta de clientela, com apenas um ou dois gatos pingados parando eventualmente em seu estabelecimento móvel. Como diria um velho conhecido meu, o comerciante era a “cara do abandono”.

Pensei que, talvez, estivessem vendendo marcas diferentes. Entendo que tem gente que adora a marca X e detesta a marca Y, apesar de eu não ter paladar apurado para diferenciar uma das outras. Mas existia a possibilidade que o vendedor afortunado estivesse oferecendo alguma promoção tentadora, tipo compre uma e leve duas, ou simplesmente praticava um preço mais atraente.

A curiosidade foi mais forte que minha preguiça de levantar da cadeira. Me aproximei do vendedor solitário, olhei em direção à sua caixa e notei as informações do tipo de produto e preço:  Cerveja:R$ 2,50. Com a possibilidade de uma possível venda, ele se manifestou, e travamos um rápido diálogo.

– Vai uma cervejinha, doutora?

-Talvez. Quais marcas o senhor tem aí?

– X,Y e Z, patroa.

– Tem K?  – perguntei apenas para contrariar.

-Tem não, senhora!

-Sério, nenhuma  latinha perdida por aí?

-Tem não, senhora! – já desviando o olhar, sabendo que daquele mato não sairia coelho.

-Então não, obrigado!

Caminhei, despreocupadamente, em direção ao outro vendedor e esperei a (quase) multidão dispersar um pouco, para me aproximar. Quando percebeu meu possível interesse, o senhor de meia idade me recepcionou de forma enfática.

– Salve governadora (aparentemente, ele chamava todo mundo assim). Boa tarde. Vai uma cervejinha estupidamente gelada para amenizar esse calor que só o diabo aguenta?

Não consegui deixar de rir da curiosa abordagem climática-satânica.

A caixa de isopor continha uma plaquinha com as seguintes informações: Cerveja ESTUPIDAMENTE GELADA do Nestor, R$2,50, com letras garrafais, ressaltando o slogan “estupidamente gelada”.

Repeti a pergunta que fizera ao outro vendedor.

-Quais marcas o senhor tem aí?

-A que a senhora quiser, minha governadora. Temos aqui X,Y e Z. Pode escolher! – enquanto falava, abria a caixa de isopor e mostrava as latinhas das marcas citadas, como se quisesse que eu comprovasse o que ele estava dizendo.

Antipática como só eu sei ser, fiz uma cara de decepção e disparei como se fosse uma autêntica apreciadora da bebida.

-Ôh, seu Nestor, eu gosto mesmo é da (marca) K. Só bebo dela. O senhor não tem, né? Tudo bem, fica para a próxima vez.

Antes mesmo de eu iniciar meu caminho de volta para a minha cadeira, que eu temia que alguém já tivesse surrupiado, o carismático vendedor contra-atacou.

-Não tenho aqui, mas não vai ser por isso que a minha governadora vai ficar sem a sua cerveja.

Me pegou de surpresa. Imediatamente, o seu Nestor (nem sei se ele era, de fato, o tal Nestor da plaquinha) chamou um menino que estava próximo, vendendo espetinho de queijo coalho.

-Zequinha, seu moleque. Vai correndo lá na venda do Tonico e pega cinco latas de K. Depois eu acerto com ele. Mas vai num pé e volta noutro. Vou cuspir no chão, hein? Te quero de volta antes de secar!

E lá se foi o moleque, correndo como o vento.

Sem saber bem o que fazer e meio sem graça, disse que não precisava se incomodar. E para que cinco latas? Sou tão fraca para bebida, que com apenas meia cerveja, já começo a cantar O Que é Que a Baiana Tem, imitando Carmem Miranda e dançando em estilo hula hula.

De uma forma que me pareceu bem sincera e convincente, seu Nestor comentou.

– Ôh governadora, não tem muita gente que bebe dessa marca por aqui, mas se uma pessoa distinta como a senhora gosta, é bom que eu tenha um estoque comigo.

Bingo! Um belo soco no estômago da espertalhona aqui. O segredo estava revelado. Não era o preço ou as marcas comercializadas que fazia o seu Nestor vender mais que o seu concorrente. Era a maneira que ele atendia seus clientes.

O menino voltou como um raio, com as latinhas em uma sacola plástica. Seu Nestor conseguiu, enfim, me vender uma cerveja, o que é o equivalente a vender geladeira para um esquimó. De quebra, ainda ganhei um espetinho de queijo, cortesia para compensar espera, que não ultrapassou cinco minutos.

Com sorriso amarelo, paguei os R$2,50 de cada lata e agradeci.

-Eu que agradeço, minha governadora. Vá na paz.

De volta à minha cadeira, saboreando o queijo, bebericando a cerveja K (que não era de todo mal), já sentindo o corpo levemente adormecido e cantarolando a canção que exalta a graça e a beleza da mulher nascida na Bahia, fiquei matutando como ele conseguira tal feito.

Seu Nestor, com a sua abordagem carismática, preocupação com a satisfação do cliente, descrição atraente do produto (o termo “estupidamente gelada” na caixa chamava atenção) e dando mais o que eu esperava, além de uma simpatia cativante, me vendeu um produto que, normalmente, eu não compraria.

Talvez de forma instintiva, o comerciante utilizou estratégias básicas e eficientes para vender seu produto e manter um interessante fluxo de clientes, possivelmente cativos.

Quem não gosta de ser bem atendido e ainda sair com um produto (ou serviço) que supra as necessidades e até supere as expectativas?

A grande sacada desta história é que, mesmo com toda a tecnologia avançada e zilhões de métodos e estratégias de marketing disponíveis, muitas vezes o fator “ser humano” é deixado de lado.

Infelizmente, no mundo, ainda é gritante a falta de habilidade no atendimento ao cliente. Esse simples “detalhe” é uma das armas mais poderosas de marketing que se possa imaginar. A empresa pode gastar milhões em propaganda, mas não vai muito longe se não cultivar seus clientes.

Talvez pelo fato de termos nos acostumado com atendimento de péssima qualidade, as empresas e prestadores de serviço não se preocupem muito com isso. Mas esse cenário tem mudado de uma forma espantosa. O consumidor, além de estar ficando cada vez mais exigente e consciente (que bom, por isso), tem a internet e, principalmente, as redes sociais como importantes aliadas.

O estabelecimento, empresa ou profissional que não considerar – verdadeiramente e não apenas teoricamente – a satisfação do cliente como extremamente relevante para seu negócio, corre o risco de amargar várias postagens depreciativas, se multiplicando como vírus. E mesmo se conseguir provar que focinho de porco não é tomada, vai levar tempo para consertar o estrago.

Estatisticamente, quando alguém adquire um ótimo produto ou serviço, menciona seu contentamento para uma média de cinco pessoas. Caso contrário, se o produto ou serviço não lhe agradem, a sua insatisfação (e, às vezes, revolta) é cuspida para o espaço sideral e alcança, em média, o sêxtuplo de pessoas.

O que você prefere? Agradar cinco ou desagradar trinta? Lembre-se que o velho clichê,falem mal, mas falem de mim, não é nem um pouco adequado para qualquer tipo de negócio. A não ser, é claro, se você for uma celebridade em decadência ou se chamar Axl Rose.

Um exemplo interessante, que ilustra o poder das redes sociais, aconteceu no centro de São Paulo, em uma das lojinhas que ficam em galerias, na região de Santa Efigênia.

Uma senhora levou seu telemóvel com defeito em um dos cubículos, onde a placa informava que se fazia reparo na marca ela usava. O atendente/técnico, muito simpático e prestativo, analisou, abriu o telefone, viu uma poeirinha estranha (isso não era a causa do defeito – estou simplificando para ilustrar), resolveu o problema, fechou o aparelho e devolveu.

A senhora, feliz da vida com o conserto, pois já estava preocupada em ter que comprar um novo (e o telefone dela não era do tipo que vem como brinde nas embalagens de sabão em pó), perguntou:

– Muito obrigada, moço. Quanto lhe devo?

-Nada, não senhora. Era só uma poeirinha. Não vou cobrar por isso.

Encantada com a gentileza e honestidade do rapaz – que poderia ter dito que era o tubo de imagem, já que ela não iria entender mesmo – chegou em casa e fez uma postagem na rede social mais popular do mundo. No outro dia, havia uma fila quase quilométrica no estabelecimento, esperando ser atendida por aquele rapaz gentil e honesto.

Ninguém estava lá para descolar um reparo de graça. Estavam lá pela prova social que o atendente recebeu de uma cliente satisfeita. O resultado de um simples ato de generosidade e simpatia, foi mais eficiente que uma propaganda, em horário nobre na TV aberta, feita pela Ivete Sangalo, fantasiada de telemóvel, cantando uma paródia de lacrimosa canção popular O Telefone Chora, gravada por Márcio José, nos anos 70: seu telefone chora, leve pro Alencar, ele conserta e não vai lhe roubar.

Percebe que um cliente feliz pode trazer mais retorno do que se possa imaginar?

Eu costumo abastecer sempre no mesmo posto de gasolina por um motivo específico. E não é pelo preço do combustível. Os frentistas são simpáticos, sempre sorridentes, prestativos e gentis. Não importa o valor que eu gaste, meu carro sai com os vidros limpos, pneus calibrados, tanque de água cheio e ainda recebo um caloroso “volte sempre, senhora”. Nem precisa pedir.

Muito diferente de certos lugares, em que o atendente aborda o cliente com uma expressão que diz algo do tipo: eu não preciso de você, mas você precisa de mim, parecendo que está prestando um favor e não um serviço.

Sob minha ótica, não existe marketing mais eficiente para qualquer negócio do que gentileza, honestidade e a preocupação em bem servir. Claro que seria ingenuidade desconsiderar as estratégias para dar mais visibilidade, atrair mais pessoas, gerar mais “curtidas”, etc. Mas por melhor que seja o produto ou serviço, sem o alicerce sólido do fator humano, da empatia, da satisfação total do cliente, o desmoronamento é questão de tempo.

Da próxima vez que pensar no planejamento de marketing para seu negócio, lembre-se que não basta só abrir a carteira. Abra um sorriso, também.

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